Corpo-Mapa

Esterline Goes e Rozi Paula

O que era o vitiligo nos anos 90? Se era algo que nem os médicos ainda sabiam por completo, imagine para uma criança de 5 anos.

A escola era vida, mas a vida tinha que ser interrompida pelos testes. A criança, a estudante, a cobaia.

12 anos, roupa nenhuma, uma maca, alguns médicos, muitos comentários e um novo tratamento.

[Continua abaixo...]

“Ei, uma prima de um amigo tinha isso, ela se curou tomando chá de couro de camaleão.”
“Ei, tu se queimou?”
“Ei, isso coça?”

A cadeira do lado sempre vazia no ônibus. Roupas longas, cabelos compridos, uma adolescente usando uma máscara de corpo inteiro.

17 anos. O pai não leva mais. A mãe não leva mais. Tratamentos mirabolantes nunca mais. Remédios nunca mais. Vitiligo ainda mais.

Hora de assumir os fios brancos, os mapas na pele, hora de cortar o cabelo, trocar as roupas, rasgar a máscara.
“Ei, vitiligo, né?! Legal!”
O que é o vitiligo hoje? Identidade.

Marcas escolhidas e não escolhidas. Cabelos brancos cedo demais. Sobrancelhas grisalhas. Tudo eu. Sem elas a minha pessoa não existiria. Minhas cicatrizes me definem sim, pois sofri por elas, mas aprendi muito sobre mim e sobre o mundo por causa delas. Cada um tem seu tempo, e não julgo quem não consegue superar as barreiras da estética socialmente imposta, afinal.. essas barreiras existem e, infelizmente, possuem sua solidez. Mas hoje eu posso dizer que tenho orgulho e gosto de quem sou, gosto da minha pele, os outros gostando ou não.

Muitas pessoas têm problemas com a cor de pele do próximo, pras estas eu faço questão de afirmar que não tenho apenas duas, mas várias cores, principalmente na alma, pois mais vale uma alma colorida do que muitas almas cinzentas de preconceito.

A caminhada se torna mais fácil quando aceitamos o vitiligo como parte do caminho, não como obstáculo.

- Rozi Paula.

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